A teologia diz que os anjos são seres criados por Deus para proteger os homens na Terra. Prefiro a poesia, que me diz que vez por outra os anjos nascem aqui na Terra, e quando partem, deixam um pedaço do céu para gente saber como é. Vânia foi um desses anjos também.
Já faz um tempo que tenho perseguido aquilo que costumo chamar de gesto poético. A poesia acontece nos detalhes. Tudo aquilo que é muito grande corre o risco de nos retirar da possibilidade de vermos os gestos poéticos. A morte é um desses gigantes que nos cega diante daquilo que está em volta. Parece ter o poder de nos fazer concentrarmos apenas nela.
A morte exige atenção, não gosta de ser ignorada, ela quer ser senhora de tudo aquilo que até então achávamos importante. A morte é grande demais, eu sou pequeno, mas vez por outra encontro pessoas que em meio ao mar de dores consegue encontrar um porto seguro.
Há algum tempo uma família inteira viveu o processo da morte. Sim, o processo, ela não veio de surpresa. Anunciou-se e disse que por ali iria ficar. A morte em forma de doença, debilitação do corpo, impotência diante dos afazeres cotidianos. Uma pessoa, uma vida que por pouco tempo tive a graça de conhecer e de não mais esquecer.
Vânia… Nome simples como a vida que levava. Mulher que ainda carregava o sorriso de menina. Aliás, um belo sorriso, daqueles que desarmam até mesmo os corações de armadura. O tempo em que convivemos pude ser desarmado também. Um café, uma água, a atenção de ouvir as conversas, todo aquele conjunto de simplicidades fazia de sua casa o refúgio de irmãos e amigos.
Cuidado. Eis a marca de uma pessoa que soube conjugar o verbo amar nos gestos simples. Soube dá sentido às palavras filha, irmã, mãe, mulher, amiga e principalmente companheira. Significados que foram reforçados pelo seu jeito de ser. Talvez seja por isso ser tão difícil aceitar sua partida, que por mais que tenha sido anunciada pela doença, sempre vai ter aparência de uma partida repentina.
Lembro do nosso penúltimo encontro. Em uma esquina. Sol das treze da tarde. Eu vinha caminhando e pensando em algo que não tinha dado certo. Mas ao encontrá-la fui desarmado novamente. Com aquele sorriso sereno, ela perguntou como eu estava e antes mesmo que eu fizesse a mesma pergunta me deu um abraço. Trocamos algumas palavras, eu, sobre meus fracassos cotidianos, ela, sobre suas pequenas vitórias sobre a doença. Falou com tanta firmeza e simplicidade que esqueci o que antes me preocupava. Ao nos despedirmos me senti mais forte. Mesmo sem ter movido um dedo, sua vitória parecia a minha também.
Mas a morte, que apesar de anunciar-se, sempre tem cara de visita não esperada.
Nosso último encontro. O horário quase se repetia, mas o lugar não. Um hospital. No rosto o mesmo sorriso acolhedor, mas na fala uma preocupação, algo parecia errado. Ela sabia disso e eu, não sei como, sabia também. Mesmo assim, saí com aquela força que seu sorriso passava, com aquele rosto de quem diz, sem dizer, que tudo vai dar certo.
Um milagre, apenas um. Esta era a esperança que passava pela minha cabeça, e acredito que pela de todos aqueles que viveram aqueles momentos. Milagre? Ele não veio. Não deu o ar da graça. Ficou apenas olhando as lágrimas daqueles que ficaram a sua espera. E o que fazer então quando o milagre não vem, quando não conseguimos ressuscitar os nossos Lázaros? Talvez, quando não conseguimos ressuscitar a carne do outro, ressuscitamos a nossa, com aquilo que outro deixou em nós.
Amigos, irmãos, pais, todos fizeram seus gestos de ressurreição. E a ressurreição pode até não ter vindo do jeito que a gente imaginava, não fez alarde, túmulos não foram movidos, mas detalhes aconteceram que apenas os olhos atentos puderam ver.
Uma mulher, uma mãe, uma menina que, mesmo diante daquilo que pareceu tão grande, tão preocupante, mostrou uma força que até então eu não conhecia.
A ressurreição da carne não veio. Ficamos então, com a plenitude dos gestos poéticos que Vânia deixou entre nós. Pois, enquanto não presenciarmos os grandes milagres, continuaremos aqui, revivendo os pequenos gestos, pois aos simples Deus deu a graça, não de ressuscitar os mortos, mas sim, de reviver os gestos poéticos que eles deixaram.

João
Obrigada pelo carinho dedicado a minha irmã sei que suas palavras são sinceras assim como o carinho q ela sempre teve por vc. Suas palavras nesse belíssimo texto retratam não só a experiência q vc teve com ela mais a realidade que vivemos principalmente nesse ultimo ano que mesmo em meio a tanta dor, vivemos inúmeros momentos de alegria … Hoje as lágrimas rolam… Pela solidão, pela dor incontrolável, pela saudade insubstituível e pelo vazio da alma provocada pela sua ausência. Hoje o que fica além da saudade enorme são os ensinamentos dela, como vc expressa de gestos poeticos, e que eu os chamos de sabedoria de vida. Então vou vivendo assim, reaprendendo ser sem ter ela ao meu lado (fisicamente) e conhecendo o seu coração em tudo q deixou principalmente o q ficou na minha mente e no meu coração. A vc um grande abraço e mais uma vez OBRIGADA.
Saudades minha irmã…
Belíssimo o texto que escreveu sobre esta perda que sofreu recentemente. . Conheço bem este sentimento… Sei o quanto dói! Bom, quando quiser entrar no MSN pra gente conversar, continuo online, ta.
Beijos.
Analice.
Sempre acolhedora, Vânia tinha sempre um sorriso, um gesto discreto e especial de ser, que recebia não só em sua casa, mas com seu coração àqueles que estavam próximos.
A perda de pessoas amadas como ela é difícil de ser compreendida, na verdade o que fica em mim não é a compreensão, mas além da saudade é a esperança.
Esperança de acreditar na vida eterna através daqueles que aqui começaram construir o céu. Esperança de continuar batalhando para superar as dificuldades desta vida, sem hesitar, sem desistir. Esperança de continuar amando e amando a vida com simplicidade e força…
Hoje, embora os dias continuam a passar, não me acostumei a pensar que ela não está mais aqui em nosso meio. Entretanto, é sempre no momento em que fazemos algo que a presença dela era marcante que sua falta se torna maior.
Mas com seu testemunho de vida e a esperança que ela nos deixou posso ter mais uma lição concreta de vida, como “o homem não tem, por sua liberdade, o poder de mudar tudo ao redor dele, – por ela ele dispõe(…) da faculdade de dar um sentido a tudo”.
Belíssimo texto. Eu sei o tamanho da sua dor.
Beijão,
Rosy
jesus é fiel