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	<title>As palavras são como as crianças que adoram brincar de esconde-esconde,de vez enquando eu as encontro...</title>
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		<title>Vânia, uma vida e vários gestos de poesia</title>
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		<pubDate>Sun, 31 Jan 2010 01:37:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Mendes Possiano</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A teologia diz que os anjos são seres criados por Deus para proteger os homens na Terra. Prefiro a poesia, que me diz que vez por outra os anjos nascem aqui na Terra, e quando partem, deixam um pedaço do céu para gente saber como é. Vânia foi um desses anjos também.   Já faz [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=palavrasmagicas.wordpress.com&amp;blog=5920538&amp;post=190&amp;subd=palavrasmagicas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;"><a href="http://palavrasmagicas.files.wordpress.com/2010/01/vania2.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-194" title="Vania" src="http://palavrasmagicas.files.wordpress.com/2010/01/vania2.jpg?w=112&#038;h=150" alt="" width="112" height="150" /></a></span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><span style="color:#ff0000;">A teologia diz que os anjos são seres criados por Deus para proteger os homens na Terra. Prefiro a poesia, que me diz que vez por outra os anjos nascem aqui na Terra, e quando partem, deixam um pedaço do céu para gente saber como é. Vânia foi um desses anjos também.</span></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;"><em><span style="color:#ff0000;"> </span></em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;">Já faz um tempo que tenho perseguido aquilo que costumo chamar de gesto poético. A poesia acontece nos detalhes. Tudo aquilo que é muito <em><a href="http://palavrasmagicas.files.wordpress.com/2010/01/vania1.jpg"></a></em>grande corre o risco de nos retirar da possibilidade de vermos os gestos poéticos. A morte é um desses gigantes que nos cega diante daquilo que está em volta. Parece ter o poder de nos fazer concentrarmos apenas nela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;">A morte exige atenção, não gosta de ser ignorada, ela quer ser senhora de tudo aquilo que até então achávamos importante. A morte é grande demais, eu sou pequeno, mas vez por outra encontro pessoas que em meio ao mar de dores consegue encontrar um porto seguro.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;">Há algum tempo uma família inteira viveu o processo da morte. Sim, o processo, ela não veio de surpresa. Anunciou-se e disse que por ali iria ficar. A morte em forma de doença, debilitação do corpo, impotência diante dos afazeres cotidianos. Uma pessoa, uma vida que por pouco tempo tive a graça de conhecer e de não mais esquecer.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;">Vânia&#8230; Nome simples como a vida que levava. Mulher que ainda carregava o sorriso de menina. Aliás, um belo sorriso, daqueles que desarmam até mesmo os corações de armadura. O tempo em que convivemos pude ser desarmado também. Um café, uma água, a atenção de ouvir as conversas, todo aquele conjunto de simplicidades fazia de sua casa o refúgio de irmãos e amigos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;">Cuidado. Eis a marca de uma pessoa que soube conjugar o verbo amar nos gestos simples. Soube dá sentido às palavras filha, irmã, mãe, mulher, amiga e principalmente companheira. Significados que foram reforçados pelo seu jeito de ser. Talvez seja por isso ser tão difícil aceitar sua partida, que por mais que tenha sido anunciada pela doença, sempre vai ter aparência de uma partida repentina.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;">Lembro do nosso penúltimo encontro. Em uma esquina. Sol das treze da tarde. Eu vinha caminhando e pensando em algo que não tinha dado certo. Mas ao encontrá-la fui desarmado novamente. Com aquele sorriso sereno, ela perguntou como eu estava e antes mesmo que eu fizesse a mesma pergunta me deu um abraço. Trocamos algumas palavras, eu, sobre meus fracassos cotidianos, ela, sobre suas pequenas vitórias sobre a doença. Falou com tanta firmeza e simplicidade que esqueci o que antes me preocupava. Ao nos despedirmos me senti mais forte. Mesmo sem ter movido um dedo, sua vitória parecia a minha também.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;">Mas a morte, que apesar de anunciar-se, sempre tem cara de visita não esperada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;">Nosso último encontro. O horário quase se repetia, mas o lugar não. Um hospital. No rosto o mesmo sorriso acolhedor, mas na fala uma preocupação, algo parecia errado. Ela sabia disso e eu, não sei como, sabia também. Mesmo assim, saí com aquela força que seu sorriso passava, com aquele rosto de quem diz, sem dizer, que tudo vai dar certo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;">Um milagre, apenas um. Esta era a esperança que passava pela minha cabeça, e acredito que pela de todos aqueles que viveram aqueles momentos.  Milagre? Ele não veio. Não deu o ar da graça. Ficou apenas olhando as lágrimas daqueles que ficaram a sua espera. E o que fazer então quando o milagre não vem, quando não conseguimos ressuscitar os nossos Lázaros? Talvez, quando não conseguimos ressuscitar a carne do outro, ressuscitamos a nossa, com aquilo que outro deixou em nós.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;">Amigos, irmãos, pais, todos fizeram seus gestos de ressurreição. E a ressurreição pode até não ter vindo do jeito que a gente imaginava, não fez alarde, túmulos não foram movidos, mas detalhes aconteceram que apenas os olhos atentos puderam ver.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;">Uma mulher, uma mãe, uma menina que, mesmo diante daquilo que pareceu tão grande, tão preocupante, mostrou uma força que até então eu não conhecia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;">A ressurreição da carne não veio. Ficamos então, com a plenitude dos gestos poéticos que Vânia deixou entre nós. Pois, enquanto não presenciarmos os grandes milagres, continuaremos aqui, revivendo os pequenos gestos, pois aos simples Deus deu a graça, não de ressuscitar os mortos, mas sim, de reviver os gestos poéticos que eles deixaram.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#0000ff;"> </span></p>
<p style="text-align:right;"><span style="color:#0000ff;"><em><a href="http://palavrasmagicas.files.wordpress.com/2010/01/vania1.jpg"></a>João Mendes Possiano.</em></span></p>
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